segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

"O novo analfabetismo"


Um jovem português está me prisão domiciliária, em Budapeste, aguardando uma decisão judicial, por ter entrado nos sistemas informáticos de um clube e de um escritório de advogados, pirateando milhares ou milhões de documentos relativos aos negócios do futebol. E, segundo foi noticiado, a sua extraordinária competência de hacker foi também usada com sucesso numa transferência bancária, para a sua conta, de um offshore, situado num paraíso fiscal. Julgo, tenho a certeza, que quase todos nós, por mais firmes que sejam os nossos princípios morais e sem vacilações na nossa honestidade, vemos em primeiro lugar a operação prodigiosa e só depois, a alguma distância, a acção criminosa. Perante uma tal expertise, inclinamo-nos com alguma reverência, mesmo que não tenhamos qualquer ambição de chegar a tão alto nível do conhecimento cibernético. A verdade é que, exceptuando uma elite, a grande maioria dos utilizadores dos computadores e de todos os aparelhos de inteligência artificial se encontra numa situação de analfabetismo, mesmo quando tem treino suficiente para se mover com desenvoltura no mundo informático e executar todas as operações de que necessita. Uma elite detentora de um saber hermético projecta modelos de conhecimento e usa códigos e mecanismos de programação que todos nós aprendemos a seguir, mas não os sabemos ler. Continuamos enredados nas categorias para as quais fomos programados. Ao nosso analfabetismo podemos chamar "crise da programação". Foi esse o nome que lhe deu um visionário chamado Vilem Flusserl (1920-1991). Foi um teórico da "civilização dos media", nascido em Praga, que viveu grande parte da sua vida no Brasil. Ele atribui a "crise da programação" a uma evolução no tipo de objectos mediáticos que circulam na nossa época. Na sua explicação desta crise, ele opõe um período "histórico", ao longo do qual a comunicação era dominada por mensagens alfabéticas, compostas por letras dispostas em cadeias lineares, formando frases articuladas por uma certa lógica, a um período "pós-histórico", aquele em que estamos a viver, caracterizado por um desenvolvimento cada vez mais forte de comunicações baseadas em tecno-imagens que nos deixam imersos num universo mediático muito diferente daquele que funcionava segundo o regime dos discursos alfabéticos e do logos que lhe corresponde. As tecno-imagens, na definição de Vilém Flusser, são audiovisuais e não linguísticas, são mais sensíveis do que lógicas, e opõem-se tanto aos textos lineares quanto às imagens tradicionais. Com uma sensibilidade sismográfica, Flusser percebeu uma coisa que entretanto ganhou uma enorme evidência: que as gerações mais jovens, já não completamente alfabetizadas, como tinham sido as gerações anteriores, estavam em vias de conquistar este novo território, passando da história à pós-história. Do pensamento de Flusser sobre esta nova civilização dos media decorre a ideia de que vivemos uma dupla crise: uma crise do analfabetismo e uma crise do futuro. Neste sentido, analfabeta é precisamente a geração alfabetizada, mas que nunca conseguirá sentir que o seu habitat natural é este mundo das tecno-imagens, caracterizado por mecanismos de programação: programação das próprias imagens e programação dos espectadores e dos produtores destas imagens. Quanto à crise do futuro, ela revela-se, segundo o diagnóstico de Flusser, na nossa incompetência para as operações que os hackers, figuras da pós-história, executam; e revela-se no modo como os novos aparelhos foram inventados para funcionar automaticamente, sem a intervenção humana. Assim, o homem começa a ficar fora do circuito. E a nossa relação com as gerações futuras é marcada pela descontinuidade, por um hiato. E, imersos no "presentismo" e sujeitos à lógica da aceleração, é a própria categoria de futuro que perde a sua antiga validade. A crise do futuro tem a ver com a nossa dificuldade em projectar-nos - em projectar a nossa humanidade - num tempo à nossa frente. Daí que tenham também desaparecido as responsabilidades intergeracionais, uma condição que tem dado azo a que se anunciem lutas entre gerações, em substituição da luta de classes.

António Guerreiro, O novo analfabetismo, Público, Ípsilon, 15-02-2019, p.2.


P.S.: sobre estas lutas geracionais, e comentando livro de Umberto Ecodeixei este apontamento.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Evolução do humano


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Os humanos começaram por evoluir do macaco (Australopithecus) há cerca de 2,5 milhões de anos na África oriental, de onde acabaram por migrar para se fixarem no norte de África, na Europa e na Ásia. Durante grande parte dos dois milhões de anos seguintes havia inúmeros géneros humanos (Homo) espalhados pela terra, incluindo o Homo Neanderthalensis, Homo erectus, Homo soloensis, Homo denisova, Homo ergaster, e por aí fora. Os Homo sapiens europeus são por vezes designados de Cro-Magnon, assim denominados após descoberta de ossadas de Homo Sapiens em 1868 na gruta do mesmo nome perto da aldeia de Les Eyzes, em França. A teoria habitualmente conhecida como «hipótese da origem única» defende que os humanos anatomicamente modernos desenvolveram-se em África há cerca de 200 mil anos e que há mais ou menos 125 mil anos um ramo destes primeiros humanos, o Homo Sapiens, começou a migrar e a fixar-se na Eurásia, onde ocupou o lugar de uma espécie humana mais antiga, os neandertais. Recentemente, esta teoria foi corroborada por provas genéticas. Contudo, uma descoberta recente de fósseis de Homo Sapiens em Jebel Irhoud, em Marrocos, datados de há pelo menos 300 mil anos, sugerem que a nossa espécie talvez seja mais antiga do que pensávamos. Ver Jean-Jacques Hublin et al., «Nem Fossils from Jebel Irhoud, Marocco, and the Pan-African Origin of Homo Sapiens», Nature 546 (8 de junho de 2017), pp.289-292.
Alguns investigadores defendem convictamente que as origens do Homo Sapiens se encontram no norte de África e não, como geralmente se pensa, na África austral e oriental, e que serão 50 mil anos mais antigas do que o indicado pelas estimativas originais, que situavam as origens do Homo sapiens há 60 mil ou 70 mil anos. (...) 
Geralmente, acredita-se que o Homo Sapiens e os neandertais coincidiram na Europa pelo menos durante dez mil anos, provavelmente entre o ano 40 000 e o ano 30 000 a.C., e existem provas concludentes de miscigenação entre estas duas espécies (todos os seres humanos vivos não africanos têm aproximadamente dois por cento de ADN neandertal). (...) Como os investigadores acreditam que o acasalamento com neandertais ocorreu entre sete mil a dez mil anos antes do homem siberiano ter vivido, isso poderia significar que a miscigenação entre humanos e neandertais pode ter até 60 mil anos

Reza Aslan, Deus. Uma biografia, Quetzal, 2018, [tradução de Bruno Vieira Amaral], pp.43-44, nota de rodapé 1, do capítulo 1.


As redes sociais promovem a não violência (VI)



Não: As redes sociais permitem, senão favorecem, o anonimato. E, com ele, a desresponsabilização. As reacções a quente e extemporâneas. O grau de animosidade, os insultos, a grosseria que com tanta frequência se encontra nas redes sociais não tem paralelo em outras plataformas, nas quais a pessoa tem que dar a cara, pensa duas vezes antes de escrever, conserva, mesmo se a contragosto, um módico de civilidade. O historiador Timothy Snyder, num manifesto contra a tirania, alertava-nos, muito recentemente, para a importância das palavras: “Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, George Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

Sim: podemos encontrar formas mais rigorosas de estabelecer a identidade de cada usuário das redes sociais. Uma vez mais, a responsabilidade não é destas, mas de quem delas faz mau uso. De resto, quer a difamação, quer a penalização de discursos de ódio contra minorias, nomeadamente, são, e devem ser, punidas.


Nota

Há cerca de quatro semanas, Robert Habeck, líder de Os Verdes (alemães), decidiu deixar o Twitter (em protesto com o clima de ódio neste presente). 

A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls, isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra terceiros.

(continua)

Media locais, liberdade de imprensa, democracia


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O tema da sobrevivência dos média é premente, tendo em conta as debilidades financeiras de grandes grupos de referência em todo o mundo. No Reino Unido, o Governo encomendou um estudo independente sobre o futuro dos média britânicos e as conclusões do relatório divulgado esta semana foram claras: é preciso financiamento público para órgãos de comunicação social locais, de forma a evitar o seu colapso e os efeitos desastrosos que isso teria no sistema democrático. Vale a pena ler o estudo, assinado pela conceituada economista e jornalista Frances Cairncross, que tem a vantagem de pôr o dedo no essencial: o jornalismo de qualidade é fundamental para uma democracia sólida e é importante promover a sua sustentabilidade. No entanto, algumas das propostas serão com certeza polémicas. Como a que sugere a criação de um "instituto para apoiar o jornalismo de alta qualidade, garante de uma "sustentabilidade democrática de longo prazo". Embora esta solução se aproxime do que acontece nalguns países, onde existem apoios directos e indirectos adjudicados aos média, a ideia de uma entidade superior pública a distribuir dinheiro causa arrepios a qualquer director de média privado e independente: como é que se afere, afinal, o que são notícias de interesse público? E com que critérios são afectos os financiamentos? Que consequências poderiam advir, depois, com investigações indesejadas aos poderes públicos? Uma situação destas criaria, com elevada probabilidade, uma relação que poderia minar os alicerces da liberdade de imprensa. Neste estudo não ficam de fora as soluções fiscais, com efeitos directos nas contas dos publishers, como a isenção ou a redução do imposto sobre o valor acrescentado, a equivalência, em termos de carga fiscal, dos média digitais aos média em papel e a redução de IRC nos grupos que produzem um jornalismo de interesse público.

Mafalda Anjos, O debate do financiamento público para os média, Visão, 14-02-2019, p.22.

Notícias da Coreia (e o estado dentro do estado, pintar de negro...)


Depois de tudo o que fez, depois de tudo o que disse, depois dos emails com pseudónimo, depois de revelada a relação duvidosa com o benfica, o ex-presidente da Comissão Disciplinar, Ricardo Costa (senhor "Apito final" e "caso dos túneis"), foi eleito juíz do Supremo Tribunal. Isso diz qualquer coisa sobre as aspirações de carreira nessa área

José Manuel Ribeiro, Quem quer ser juíz do Supremo Tribunal?, OJogo, 17-02-2019, p.19.

Originalidades


Na décima edição do "The European Club Footballing Landscape" pode ler-se que "Portugal é agora a única grande liga europeia em que os clubes vendem os seus direitos individualmente, o que se reflecte na enorme diferença entre os três principais clubes e os restantes". É preciso repetir quantas vezes para mudar este estado de coisas? Nas 24 ligas com venda centralizada, um clube grande recebe, em média, 2,4 vezes mais do que um clube médio; em Portugal, recebem 15,4 vezes mais.  

José Eduardo Simões, OJogo, 18-02-2019, p.17.

Ei-los agora


O que o nacional-benfiquismo não se dá conta é que com esta tese, a de que Rui Vitória não tinha categoria para dar um campeonato ao benfica, estão a confessar aquilo que Sporting e FCPorto denunciaram nos anos em que Benfica e Rui Vitória conseguiram o tri e o tetra. A teia que foi criada, e está abundantemente descrita nos emails, permitia ao benfica ganhar fora de campo, quem quer que fosse o treinador. 

Paulo Baldaia, Os jogos do título, OJogo, 17-02-2019, p.9.