Obviamente, a generalização deste sentimento [um mal-estar percepcionado e/ou materializado não só relativamente às condições sócio-económicas presentes como em relação às expectativas de futuro] não é uma especificidade da actualidade. Noutros tempos históricos, alguns relativamente recentes, este mal-estar não só se impregnava na vida das populações como atingia níveis de vulnerabilidade e privação não comparáveis com os de hoje. (...) Contudo, podem identificar-se alguns aspectos singulares que marcam os tempos que correm. Desde logo, não devemos reduzir a leitura sobre a composição do mal-estar apenas aos aspectos materiais e económicos. (...) Ou seja, é um referencial que, ao longo de gerações, alimentou expectativas e aspirações no sentido de um progresso cumulativo e de uma melhoria incremental do bem-estar social (Judt, 2010). (...) Esta dinâmica de criação e interiorização de expectativas e de aspirações foi sendo especialmente alicerçada ao longo das décadas de 1980 e 1990. A construção da narrativa, nas suas mais diversas valências e, por vezes, contraditórias variantes, assentou na expectativa de uma melhoria cumulativa das condições de vida, que seria acompanhada pela generalização dos direitos e das garantias sociais nos mais diversos campos (...) Mesmo no seio de muitas famílias pertencentes a estratos sociais menos favorecidos, se foi fomentando a expectativa de um retorno económico e social a prazo, resultante, por exemplo, do investimento pessoal ou familiar na educação ou na formação profissional. (...) Desde logo, liberalização financeira, o aumento de privatizações e a crescente deslocalização de empresas (particularmente da indústria) produziram impactos sociais profundos nas economias avançadas, nomeadamente no aumento das desigualdades sociais e do desemprego (Stiglitz, 2004). Por outro lado, verificou-se uma tendência para a concentração da propriedade através da fusão em grandes grupos económicos (sobretudo no sector financeiro). Alguns deles tornaram-se demasiado grandes para falir. Ao mesmo tempo, generalizaram-se práticas de downsizing, caracterizadas pela redução de pessoal tendo em vista o aumento da eficácia financeira e produtiva dos grupos económicos. (...) A pressão concorrencial e dos mercados implicou uma pressão sobre os direitos laborais, cuja maior consequência foi o aumento dos níveis de precariedade (Cantante, 2018; Organização Internacional do Trabalho - OIT, 2018). (...) A imposição desta agenda provocou, em Portugal como nos outros países visados, um aumento significativo do desemprego e dos níveis de empobrecimento das camadas sociais menos favorecidas (incluindo franjas de estratos intermédios). Esta política aponta para dois sectores preferenciais: o desmantelamento do Estado social e a flexibilização e liberalização do mercado de trabalho (Carmo e Barata, 2017).
A crise económico-financeira e as políticas de austeridade que lhe sucederam provocaram, em muitos casos, um retrocesso abrupto das garantias e dos direitos que foram sendo adquiridos cumulativamente nas décadas precedentes. (...) Ou, dito de outra forma, os tempos difíceis de 2008 e 2015 provocaram um rompimento decisivo face aos pressupostos que alimentaram e orientaram até aí a narrativa da modernização cumulativa e incremental.
A percepção de avanço deu lugar ao sentimento generalizado de retrocesso e ao receio de ficar para trás (de ir para o desemprego, de perder rendimento, de cair na pobreza, de não ter meio de responder às despesas e às necessidades dos dependentes, etc.). O que existe agora é uma incerteza constante, a sensação de que quase tudo se pode alterar de um momento para o outro, o risco iminente de ficar pelo caminho e de não conseguir recuperar. (...)
Os sinais preocupantes a que vamos assistindo tanto na esfera política como no espaço social são expressões de sentimentos contraditórios e difíceis de caracterizar. Contudo, independentemente das suas razões, muitos destes sentimentos derivam da sensação de se ter sido sujeito a uma ou mais injustiças. A injustiça de levar uma vida inteira a trabalhar e acabar no desemprego, a injustiça de perder o subsídio de desemprego apesar de se ter descontado anos a fio para a Segurança Social, a injustiça de investir tudo na educação dos filhos e estes acabarem na precariedade e empregos mal remunerados...Estas e outras sensações e percepções povoam os quotidianos e fazem parte da vida de todos os dias. E, por vezes, são vividas isoladamente e desgarradas dos laços sociais e das redes de apoio e de solidariedade. (...) Ocultar a pobreza no espaço público significa invisibilizá-la porque se considera, entre outros aspectos, que esta resulta em grande medida da responsabilidade individual. A pobreza é, assim, vista como tendo origem em actos que derivam de incapacidades individuais, sejam de ordem psicológica ou de personalidade (preguiça, libertinagem...) sejam decorrentes de características físicas (por vezes, de natureza étnica e racial) ou de enfermidades e doenças. Por outro lado, a pobreza tende a ser empurrada para territórios circunscritos e periféricos da cidade, como se esses espaços se escondessem por efeito da acção voluntária. (...) Quantas vezes se ouve dizer que a pobreza só se resolve com a alteração das mentalidades?...Como se quase tudo dependesse apenas da vontade individual de conquistar uma vida melhor. A este respeito, convém notar que muitas das iniciativas de solidariedade para com os mais pobres, de carácter assistencialista, não conseguem (ou não lhes interessa) romper com este tipo de noções que enfatizam a responsabilidade individual como o único caminho para se sair da condição de pobreza. Num certo sentido, estas acabam também por ser geradoras de mecanismos acrescidos de invisibilidade social. Diabolizar significa alimentar sentimentos de forte hostilidade que têm como alvo o «outro», que, por seu turno, se transforma na suposta fonte de todos os males vividos. (...) O mal-estar é um sintoma profundo de que algo de muito errado está a acontecer nas nossas sociedades (...) No nosso entender, é importante resistir a tentações que projectam nas designadas gerações mais jovens, tendencialmente mais qualificadas, a emergência e a constituição de um novo sujeito histórico de cariz transformador (identificado em categorias como a de precariado). Ou, em sentido contrário, não devemos também embarcar em visões de vitimização, como se estes fossem completamente incapazes de inverter alguns constrangimentos que abalam as suas vidas. Tentámos evitar maniqueísmos (nem heróis, nem vítimas), assim como oposições artificiais (ou emancipadores, ou acomodados), que em nada ajudam a análise destes processos sociais complexos e multidimensionais.
Renato do Carmo e Ana Rita Matias, Retratos da precariedade. Quotidianos e aspirações dos jovens trabalhadores, Tinta da China, Lisboa, 2019, pp.9-21.



