domingo, 10 de março de 2019

Uma interpretação do presente


Obviamente, a generalização deste sentimento [um mal-estar percepcionado e/ou materializado não só relativamente às condições sócio-económicas presentes como em relação às expectativas de futuro] não é uma especificidade da actualidade. Noutros tempos históricos, alguns relativamente recentes, este mal-estar não só se impregnava na vida das populações  como atingia níveis de vulnerabilidade e privação não comparáveis com os de hoje. (...) Contudo, podem identificar-se alguns aspectos singulares que marcam os tempos que correm.  Desde logo, não devemos reduzir a leitura sobre a composição do mal-estar apenas aos aspectos materiais e económicos. (...) Ou seja, é um referencial que, ao longo de gerações, alimentou expectativas e aspirações no sentido de um progresso cumulativo e de uma melhoria incremental do bem-estar social (Judt, 2010). (...) Esta dinâmica de criação e interiorização de expectativas e de aspirações foi sendo especialmente alicerçada ao longo das décadas de 1980 e 1990. A construção da narrativa, nas suas mais diversas valências e, por vezes, contraditórias variantes, assentou na expectativa de uma melhoria cumulativa das condições de vida, que seria acompanhada pela generalização dos direitos e das garantias sociais nos mais diversos campos (...) Mesmo no seio de muitas famílias pertencentes a estratos sociais menos favorecidos, se foi fomentando a expectativa de um retorno económico e social a prazo, resultante, por exemplo, do investimento pessoal ou familiar na educação ou na formação profissional. (...) Desde logo, liberalização financeira, o aumento de privatizações e a crescente deslocalização de empresas (particularmente da indústria) produziram impactos sociais profundos nas economias avançadas, nomeadamente no aumento das desigualdades sociais e do desemprego (Stiglitz, 2004). Por outro lado, verificou-se uma tendência para a concentração da propriedade através da fusão em grandes grupos económicos (sobretudo no sector financeiro). Alguns deles tornaram-se demasiado grandes para falir. Ao mesmo tempo, generalizaram-se práticas de downsizing, caracterizadas pela redução de pessoal tendo em vista o aumento da eficácia financeira e produtiva dos grupos económicos.  (...) A pressão concorrencial e dos mercados implicou uma pressão sobre os direitos laborais, cuja maior consequência foi o aumento dos níveis de precariedade (Cantante, 2018; Organização Internacional do Trabalho - OIT, 2018).  (...) A imposição desta agenda provocou, em Portugal como nos outros países visados, um aumento significativo do desemprego e dos níveis de empobrecimento das camadas sociais menos favorecidas (incluindo franjas de estratos intermédios). Esta política aponta para dois sectores preferenciais: o desmantelamento do Estado social e a flexibilização e liberalização do mercado de trabalho (Carmo e Barata, 2017).
A crise económico-financeira e as políticas de austeridade que lhe sucederam provocaram, em muitos casos, um retrocesso abrupto das garantias e dos direitos que foram sendo adquiridos cumulativamente nas décadas precedentes. (...) Ou, dito de outra forma, os tempos difíceis de 2008 e 2015 provocaram um rompimento decisivo face aos pressupostos que alimentaram e orientaram até aí a narrativa da modernização cumulativa e incremental
A percepção de avanço deu lugar ao sentimento generalizado de retrocesso e ao receio de ficar para trás (de ir para o desemprego, de perder rendimento, de cair na pobreza, de não ter meio de responder às despesas e às necessidades dos dependentes, etc.). O que existe agora é uma incerteza constante, a sensação de que quase tudo se pode alterar de um momento para o outro, o risco iminente de ficar pelo caminho e de não conseguir recuperar. (...)
Os sinais preocupantes a que vamos assistindo tanto na esfera política como no espaço social são expressões de sentimentos contraditórios e difíceis de caracterizar. Contudo, independentemente das suas razões, muitos destes sentimentos derivam da sensação de se ter sido sujeito a uma ou mais injustiçasA injustiça de levar uma vida inteira a trabalhar e acabar no desemprego, a injustiça de perder o subsídio de desemprego apesar de se ter descontado anos a fio para a Segurança Social, a injustiça de investir tudo na educação dos filhos e estes acabarem na precariedade e empregos mal remunerados...Estas e outras sensações e percepções povoam os quotidianos e fazem parte da vida de todos os dias. E, por vezes, são vividas isoladamente e desgarradas dos laços sociais e das redes de apoio e de solidariedade. (...) Ocultar a pobreza no espaço público significa invisibilizá-la porque se considera, entre outros aspectos, que esta resulta em grande medida da responsabilidade individual. A pobreza é, assim, vista como tendo origem em actos que derivam de incapacidades individuais, sejam de ordem psicológica ou de personalidade (preguiça, libertinagem...) sejam decorrentes de características físicas (por vezes, de natureza étnica e racial) ou de enfermidades e doenças. Por outro lado, a pobreza tende a ser empurrada para territórios circunscritos e periféricos da cidade, como se esses espaços se escondessem por efeito da acção voluntária. (...) Quantas vezes se ouve dizer que a pobreza só se resolve com a alteração das mentalidades?...Como se quase tudo dependesse apenas da vontade individual de conquistar uma vida melhor. A este respeito, convém notar que muitas das iniciativas de solidariedade para com os mais pobres, de carácter assistencialista, não conseguem (ou não lhes interessa) romper com este tipo de noções que enfatizam a responsabilidade individual como o único caminho para se sair da condição de pobreza. Num certo sentido, estas acabam também por ser geradoras de mecanismos acrescidos de invisibilidade social. Diabolizar significa alimentar sentimentos de forte hostilidade que têm como alvo o «outro», que, por seu turno, se transforma na suposta fonte de todos os males vividos. (...) O mal-estar é um sintoma profundo de que algo de muito errado está a acontecer nas nossas sociedades (...) No nosso entender, é importante resistir a tentações que projectam nas designadas gerações mais jovens, tendencialmente mais qualificadas, a emergência e a constituição de um novo sujeito histórico de cariz transformador (identificado em categorias como a de precariado). Ou, em sentido contrário, não devemos também embarcar em visões de vitimização, como se estes fossem completamente incapazes de inverter alguns constrangimentos que abalam as suas vidas. Tentámos evitar maniqueísmos (nem heróis, nem vítimas), assim como oposições artificiais (ou emancipadores, ou acomodados), que em nada ajudam a análise destes processos sociais complexos e multidimensionais

Renato do Carmo e Ana Rita Matias, Retratos da precariedade. Quotidianos e aspirações dos jovens trabalhadores, Tinta da China, Lisboa, 2019, pp.9-21. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

Quarta-feira europeia


Noite memorável no Dragão. Ao lado de 49028 almas. A beber as emoções e o drama encenado até à última gota do cálice - desta vez, com bom sabor. 

06.03.2019, 1/8 final da Champions League, FCP-3-1-Roma (após prolongamento; agregado de 4-3), Arquibancada do estádio do Dragão.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Biografias e história do cinema

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Um filme quase em forma de documentário, da autoria de John S.Baird, para nos falar da carreira e, sobretudo, da relação entre os actores Oliver Hardy e Stan Laurel, conhecidos em Portugal, respectivamente, como Bucha e Estica. Nos anos 90, ainda era possível ver passar na tv portuguesa alguns gags da célebre dupla (com representações, elogiadas pela fidelidade aos originais, dos actores Steve Coogan e John C.Reilly). Mas não conhecia as suas histórias de vida (e a motivação para ir ver o filme foi essa, aprender algo de novo acerca da biografia de duas figuras carismáticas da história do cinema, remontando às suas origens mudas) que, neste filme, nos são dadas a conhecer, em uma hora e meia, sem uma grande densidade ou intensidade emocional (longe de ser, a meu ver, um grande filme), mas com(o) uma espécie, mais do que outra coisa, de remember (com a sua nostalgia) cinematográfica e celebração da amizade (da crise - zanga, mágoa e amuos - e rápida recuperação de uma grande amizade, da absoluta dependência de duas almas, de dois actores [indivíduo e persona] que formaram uma enorme dupla de sucesso público, mas que a relação com os estúdios, um produtor em particular, Hal Roach, separou e que, voltando anos depois, não encontrará financiamento para os seus filmes, e que apenas paulatinamente conseguirá voltar a encher os grandes palcos em digressão por Inglaterra e Irlanda). 

terça-feira, 5 de março de 2019

Modalidades

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Hoje, o Público apresenta as estatísticas acerca do número de federados em várias modalidades em Portugal e ficamos a saber que o andebol é, a seguir ao futebol e a natação, a modalidade com mais praticantes federados no nosso país: 49812 (em 2017), frente aos 44208 do voleibol; 41807 do basket; 26249 do campismo e montanhismo; 18766 do atletismo; 18312 de ginástica; 15892 da patinagem; 16139 do ténis; 15847 do golfe; 15739 do ciclismo; 13231 do karaté; 12702 do judo; 8387 de columbofilia. Isto, face aos 144256 praticantes do futebol (176349 se considerarmos as suas variantes de futsal e futebol de praia) e 65499 na natação
Os inscritos no futebol são 28,2% do total, como há uma década; mas menos que os 35% que representavam há 20 anos. Em Espanha, o basquetebol é a segunda modalidade com mais federados; na Alemanha, o futebol representa 31% dos inscritos.

P.S. Já agora, e face ao argumento de que menos equipas (nomeadamente, 16), tornavam o campeonato de futebol mais competitivo, eis os números de Tiago Pimentel, ainda no Público, p.69: "enquanto nos campeonatos com mais participantes o primeiro somou em média 80,7 pontos (79% do máximo de pontos), nas edições reduzidas a média situou-se nos 75,1 pontos, o que significa praticamente 83,5% do máximo de pontos possível".

Um olhar de fora


No livro No armário do Vaticano (Porto Editora, 2019), Fréderic Martel dedica cerca de quatro páginas à Igreja portuguesa. Fá-lo no contexto das posições de Roma e dos vários episcopados a quando dos debates sobre o casamento homossexual. E diz que "o episcopado português, pelo contrário [face ao que haviam feitos os bispos em Espanha, Itália, França], moderou os seus preconceitos", sendo, neste período, D.José Policarpo "o cardeal-chave". Um "moderado", de acordo com António Marujo, nas declarações prestadas ao livro; "bastante democrata sob a ditadura", acrescenta José Manuel Pureza, igualmente escutado na obra. O jornalista francês escreve, de resto, pontuando a questão, que "há que dizer que a Igreja portuguesa, comprometida antes de 1974 com a ditadura, se mantém hoje em dia distante da extrema-direita católica. Não pretende imiscuir-se nos assuntos políticos, mantém-se afastada dos debates parlamentares (...) Quando das minhas viagens a esse pequeno país católico, fiquei surpreendido com esta moderação política: as questões sociais discutem-se educadamente e a homossexualidade parece banalizar-se em toda a discrição (...) Por vezes, há mulheres que desempenham mesmo certas funções dos padres, devido à crise das vocações (...) A paróquia de Santa Isabel, no coração de Lisboa, acolhe com benevolência todos os casais de todos os géneros (...) Este liberalismo suave não escapou a Roma: a neutralidade do episcopado de Lisboa quanto às questões de sociedade desagradou"(pp.399-403). 
D.Carlos Azevedo, nem muito conservador, nem muito liberal, agradando a ambas as linhas, um "intelectual - há tão poucos no Vaticano", um "bispo inteligente", "muito digno", seria a escolha para novo cardeal patriarca de Lisboa, por parte de Bento XVI, mas um caso "de uma chantagem" e "vingança" (nas palavras de Jorge Wemans), obrigou-o a sair do país ("abandonado por todos os seus amigos portugueses") e a ser colocado em Roma. Martel sustenta que, mesmo agora, Carlos Azevedo deveria ser nomeado Cardeal Patriarca de Lisboa.

P.S.: depois de Portugal, Martel viaja até Madrid e diz-nos como ficou surpreendido quanto ao facto de, ali, a eleição do líder da Conferência Episcopal ser "um acontecimento" [nacional], enquanto em França "não suscita o menor interesse"(p.420). Um capítulo no qual fala, ainda, do cada vez maior número de Igrejinhas abandonadas e fechadas, em alguns locais mais isolados.

«Africanidade»?


Uma das precisões que o jornalista Frédéric Martel faz, no seu livro sobre o Vaticano, tem que ver com a suposta identidade africana, a sua originalidade ao lidar com a homossexualidade, no que não poderia ser posta em causa pelos "valores ocidentais" (que legitimariam, senão, mesmo, "fomentariam" aquela orientação sexual): "como descobri na Índia, os artigos homófobos actualmente em vigor nos códigos penais dos países da Ásia e África anglófonas foram, na sua maioria, impostos, a partir de 1860, e quase nos mesmos termos, pela Inglaterra vitoriana às colónias e protectorados da Commonwealth (trata-se do artigo 337º do código penal indiano, a matriz inicial, generalizando subsequentemente, de forma idêntica e sob o mesmo número, no Botsuana, Gâmbia, Lesotho, Maláui, Mauritânia, Nigéria, Quénia, Somália, Suazilândia, Sudão, Tanzânia, Zâmbia...). Este fenómeno também pode ocorrer alhures, na África do Norte e na África Ocidental: desta vez, um resultado do colonialismo francês. Logo, a penalização da homossexualidade não tem nada de local nem de asiático - é um vestígio do colonialismo. A pretensa singularidade de uma «africanidade» foi uma imposição dos colonos para tentarem «civilizar» os autóctones africanos, inculcar-lhes uma «boa moral» europeia e condenar as práticas homossexuais" (pp.388-89). O jornalista francês, também sobre a questão africana, relativa ao problema da SIDA e ao posicionamento da Igreja Católica, cita o economista canadiano Robert Calderisi, antigo chefe de missão e porta-voz do Banco Mundial para a África Ocidental: "há uma grande distância, em África, entre o discurso ideológico da Igreja e o trabalho no terreno que é frequentemente muito pragmático. Vi, por toda a parte, freiras a distribuir preservativos" (p.388). Segundo o livro de Mártel, em África muitos padres vivem, com mais ou menos exposição, com uma mulher e, por outro lado, a homossexualidade é um dos ritos de passagem tradicionais das tribos da África Ocidental, em especial na Guiné (p.387).
Concluindo o seu ponto, ainda: "teve de esperar-se pelo Papa Francisco para que a posição da Igreja quanto ao preservativo se suavizasse, ou no mínimo matizasse. Quando da sua viagem a África, em 2015, o sumo pontífice reconhecerá explicitamente que o preservativo é «um dos métodos» viáveis de luta contra a SIDA. Em vez de discorrer sobre a prevenção, insistirá no papel importante desempenhado pela Igreja no tratamento da epidemia: milhares de hospitais, de dispensários e de orfanatos, bem como a rede católica Caritas Internationalis, tratam os doentes e fornecem-lhes terapias antirretrovirais" (p.389)

Musicalidade




Manhã de Domingo, pelas 11h30, 03 de Março de 2019, Mateus. Vou para conhecer um pouco a poesia de Paula Meehan - extraordinária a musicalidade, quase dança lendo os seus originais em língua inglesa, sempre nove intensos versos em cada uma das suas composições - e (o também marinheiro, cheio de humor, com poemas do quotidiano do metro de Moscovo ou do Parlamento Inglês) Theo Morgan (poetas irlandeses). Na tradução, e lendo agora os poemas em português, estão presentes autores como Nuno Júdice ("o diretor da orquestra", no dizer de Theo Morgan, fascinado com o "dizer" de Júdice), Fernando Pinto do Amaral ou Luis Filipe Castro Mendes. Foi a sessão pública de um Seminário de tradução colectiva de poesia (no qual participaram, também, Ana Luísa Amaral ou José Luís Barreto Guimarães).