segunda-feira, 19 de abril de 2021

A SUPERLIGA EUROPEIA E A MUNDIVIDÊNCIA PREVALECENTE

 

A SUPERLIGA EUROPEIA E A MUNDIVIDÊNCIA QUE QUEREMOS PREVALECENTE
1.Faltam clubes e datas concretas para o arranque de uma Superliga Europeia (de futebol), adivinhando-se, ainda, um imbróglio legal que a deixa ainda sob o cutelo de dúvidas a suplantar.
2.Em se materializando a sua existência, cidades como Sevilha, Roterdão, Praga, Bruges, Trondheim, Dortmund, Moscovo, Atenas, Roma, Corunha, Copenhaga, Marselha, Istambul, Valência, Atalanta, Donetsk, Salzburgo, Belgrado, Basileia, Razgrad, Varsóvia, Glasgow, Bilbau, Bratislava, Lisboa, entre muitas outras dezenas que podiam ser aqui convocadas e que, mais ocasional ou mais assiduamente, podiam engalanar-se para a recepção a alguns dos mais reputados clubes europeus (e mundiais), deixam de o poder fazer.
3.O FCPorto deixaria de poder eliminar a Juventus, numa eliminatória entre os principais clubes europeus.
4.O mérito, pelo menos tal qual hoje o concebemos na principal prova europeia de clubes de futebol, desapareceria (disputa em clube fechado apenas).
5.A concretizar-se a existência de uma superliga de futebol, estaríamos perante o fim do modelo desportivo europeu, pertencente a uma árvore genealógica maior, a do modelo social europeu, que constantemente foi “vendido” como rigorosamente a preservar, ao longo dos anos.
6.Pelo que pude ler e ouvir nas últimas horas, a existir uma Superliga, dificilmente as ameaças de proibição de participação, de jogadores que nos clubes a ela aderentes se integrem, em um Mundial, poderão efectivar-se, dada a existência de jurisprudência europeia no sentido de proteger um trabalhador (jogador), independentemente da filiação em uma dada liga ou organização (no seio da qual trabalhe; tendo já existido decisão análoga a propósito das Olimpíadas e da existência de ligas desportivas paralelas).
7.Dada a tradição, e os comentadores de referência, que a rádio, em Espanha, ao nível desportivo, tem não deixei de registar, numa destas charlas, após o comunicado emitido por Florentino Pérez – futuro presidente da associação que criaria ou criará a Superliga -, por um lado a independência de editores de desporto de estações como a Cadena Ser, opondo-se, frontalmente, à criação desta liga, mau grado os três principais clubes espanhóis nela estarem empenhados; depois, os correspondentes em diferentes cidades, onde actuam os clubes médios espanhóis, a darem conta de como, naturalmente, tinha sido muito mal recebida, aquela notícia numa classe média desportiva que luta, anualmente, pela Champions; finalmente, e não menos importante, a ideia de que no basquetebol, a superliga europeia – com uma cisão como é agora prometida no futebol – não resultara bem, com os aficionados espanhóis a nunca saberem o dia em que joga o seu clube, e respectivo horário do desafio, nem o adversário a defrontar, e já fartos dos Real Madrid-Fernebache.
8.O mais relevante de tudo, a meu ver: não se encontrando o desporto e, nomeadamente, o futebol desinserido da sociedade, da constelação de valores e ideias nela prevalecentes, importa, no radical do questionamento, perceber qual a evolução que a Liga dos Campeões conheceu nas últimas décadas – concentração de clubes dos campeonatos com maior poder económico-político; fim de uma competição para clubes vencedores dos respectivos campeonatos; desequilíbrio total das competições da UEFA, primeiro com o termo da Taça das Taças e, depois, com a absoluta secundarização da Liga Europa, até à criação de uma ínfima Liga Conferência – e como, em definitivo, se propiciaram as condições, se achou que já era possível/legítimo, avançar para uma competição (que enquanto ideia é, certo, germinava, já, desde a década de 90; a dispensação em que nos encontramos, reitero não tem apenas duas décadas, nem, muito menos, surgiu ontem).
Ou seja, convém que não nos concentremos, de modo cego, no sintoma, sem perceber a causa, olhando, detidamente, a dimensões de âmbito social, económico, político, meta-político - em que mundo é que se dá o eclodir, definitivo, desta proposta?
A última encíclica do Papa Francisco chama-se “Fratelli Tutti”, mas o que, em mais uma ocasião se mostra, é que não são poucos os sectores da sociedade que preferem continuar a gritar e reivindicar que “somos todos mónadas”. Nem tudo o que se pode fazer, deve fazer-se. Ao contrário do convicto Florentino Pérez, nem Atlético de Madrid nem Barcelona publicaram, pelo menos durante a noite de ontem, qualquer comunicado sobre a sua presença numa prova destas. Talvez, ironicamente, e de modo mais optimista, o último tributo do vício à virtude.

sábado, 10 de abril de 2021

CURA CONTEMPLATIVA

 

CURA CONTEMPLATIVA

"A palavra-chave, agora mesmo, é incerteza. A virtude que há que trabalhar neste momento é a esperança. É uma disposição e significa que é algo que podemos trabalhar. Cultivo, culto e cultura para mim são três coisas que estão profundamente unidas. (…). Nem todas as palavras são ruído. Há palavras espirituais que nos fazem bem. (…) Penso que somos fecundos numa fronteira e habitando nesses limites. (…). É um território incómodo, mas fecundo. Às vezes, queremos meter-nos numa caixa [rótulo] para evitar isso, para não sofrer, mas quase ninguém encaixa apenas numa categoria. (…). Ter mais espelhos, responde à nossa alma poliédrica, porque somos muitos. Trata-se de criar harmonia entre todas essas identidades que nos configuram. (…) A reforma da sociedade em geral passa pelo contemplativo. Fizemos do pensamento e da acção um mito e cremos que há que resolver tudo fazendo coisas, e não é a única resposta possível. (…) A reforma da sociedade passa por uma cura contemplativa. Ainda que soe a ficção científica. Uma poesia. Só o simples é espiritual e o espiritual é necessariamente simples. O elementar é irmão do essencial. (…). Hoje, há muitos buscadores espirituais, dentro e fora da Igreja. Entre esses buscadores, há pessoas de todos os tipos: o intelectual, o que não tem uma formação especial, gente jovem e idosa...Ninguém pode fazer o caminho sozinho, porque, simplesmente, não somos ilhas. (…). Na cultura ocidental, na Europa, temos recursos suficientes para fazer a aventura interior, e creio que seria bom à Europa regressar ao deserto. Quer dizer, a paisagem do judeu-cristianismo é o deserto (…) e é neste deserto que se nos pode abrir agora que os europeus podemos compreender quem somos."

Pablo D’Ors, entrevistado por Laura Revuelta, para o ABC CULTURAL, 04-04-2021, pp.4-5.

domingo, 4 de abril de 2021

SANTA PÁSCOA

 

Sem a crucificação e a fé na sua ressurreição, é virtualmente impossível imaginar que o movimento de Jesus tivesse perdurado por muito tempo (…) Para os cristãos, a hora do advento de Jesus é o momento charneira da história. Com Jesus, não somos fantasistas, mas sim guardiães de uma tradição atestada, e a nossa fé enraizada no testemunho de apóstolos e profetas, de evangelistas e mártires, de santos e sábios (…) No centro da história cristã, se acha o amor e não o ódio; a graça e não a raiva; a misericórdia e não a vingança. Esta é, pelo menos, uma resposta à pergunta de Pilatos acerca da verdade

Jon Meacham, “As últimas palavras de Jesus”, Farol, 2021, pp.35, 48 e 49.


sábado, 3 de abril de 2021

PARA SÁBADO SANTO

 

PARA SÁBADO SANTO

1.“O último passo da razão é o reconhecimento de que existe um número infinito de coisas que estão para lá dela (..) Ela é meramente medíocre se não chegar ao ponto de se aperceber disso” (Blaise Pascal)

2.“A interpretação literal é para os fracos; o fundamentalismo é para os inseguros” (Jon Meacham, p.91)

3.“Sim, tudo isto requer, para usar a expressão de Samuel Taylor Coleridge, uma suspensão voluntária da incredulidade, mas, se formos ao fim da questão, o que é que não a requer? Os cientistas mais laicos não conseguem explicar o mistério da criação e, no entanto, aqui estamos nós. Os teólogos mais religiosos nunca explicarão cabalmente o mistério da redenção e, no entanto, aqui estamos nós.” (Jon Meacham, pp.120-121)

4.“Para mim, a fé é complicada, desafiadora e, por vezes, confusa. Não é mágica, mas sim misteriosa. Mágico significa que existe um feitiço, uma fórmula, para fazer milagres. Misterioso significa que não existe qualquer feitiço, qualquer fórmula – somente sombras e impenetrabilidade e a esperança de que, para usar uma expressão que T.S.Eliot [em ‘Quatro Quartetos’] pediu emprestada a Juliana de Norwich [mística inglesa dos sécs. XIV e XV], tudo acabará bem e todas as coisas acabarão bem (…) A religião não é para os fracos de coração; é uma atividade dura e difícil.” (Jon Meacham, pp.121 e 131)

5.“Independentemente da nossa posição em termos de fé, Jesus (…) foi, porventura, a figura mais importante que alguma vez viveu. Ele cativar-nos-á até ao fim dos tempos – e, caso os crentes tenham razão, muito para lá daquilo a que William Faulkner, certa vez, chamou «o último vermelho e moribundo entardecer»” (Jon Meacham, p.133)

6.“«No mundo, tereis tribulações», disse Jesus, «mas, tende confiança: Eu venci o mundo!» (…) É isso que rogamos, agora e sempre” (Jon Meacham, p.133)

[Neste ano, e para esta semana, acompanharam-me as meditações de Jon Meacham, escritor, historiador, colunista na imprensa internacional de referência, vencedor do Pullitzer, em “As últimas palavras de Jesus” (Farol, 2021). Aqui partilho os sublinhados que me pareceram mais sugestivos para Sábado Santo]

sexta-feira, 2 de abril de 2021

OS DOIS LADRÕES

 

OS DOIS LADRÕES

"É-nos dito que duas outras pessoas - «criminosos», na versão inglesa da Bíblia, uma tradução do século XVII; agitadores políticos ou revoltosos em traduções mais modernas e rigorosas - foram mortas com Jesus. (...) A presença dos outros dois homens dramatiza também as complexidades do momento político em que a Paixão se desenrola. Recentemente, tinha havido uma rebelião - durante a qual Barrabás, que foi libertado por Pilatos em vez de Jesus, cometera insurreição e assassinato - e eis aqui ainda mais dois revoltosos que provocaram distúrbios suficientes para que Roma os crucificasse. Existe muita especulação acerca dos bastidores políticos da crucificação de Jesus. (...) Caso o tivesse sido [um messias político], custa a acreditar que só ele tivesse morrido. Roma teria perseguido também os seus seguidores mais próximos (...) Além disso, é duvidoso que a mensagem do evangelho se tivesse espalhado como espalhou entre os gentios do Império Romano caso o seu personagem principal tivesse sido executado como traidor, no sentido tradicional da palavra. Jesus perturbou a ordem política, sim, mas fê-lo, ao que parece, pregando a chegada de um reino que transcendia o entendimento comum do estadismo e captando o apoio popular entre as multidões da Páscoa Judaica em Jerusalém, na altura da sua morte"

Jon Meacham, prémio Pullitzer, escritor, historiador, em "As últimas palavras de Jesus", Farol, 2021, pp.71-73.

Prosseguindo, neste ano, com este autor, a revisitação da Paixão, ele recorda-nos, do ponto de vista histórico, que "tipicamente, o condenado [à morte por crucificação] era forçado a carregar a trave horizontal, conhecida como 'patibulum', até ao local da execução. Tratava-se de um elemento de tortura adicional, já que o 'patibulum' tendia a pesar entre 34 e 56 quilos. Ele seria pregado à cruz completa - mais frequentemente pelos pulsos do que pelas palmas das mãos - com «espigões de ferros cónicos de, aproximadamente, 13 a 18 centímetros» de comprimento; uns pregos semelhantes atravessavam-lhe os pés. Os crucificados tendiam a morrer de asfixia e de choque, devido à perda de sangue" (pp.70-71).

quinta-feira, 1 de abril de 2021

A ORDEM MAIS OBEDECIDA DA HISTÓRIA

 

ACERCA DA ORDEMFAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM” (NESTE DIA EVOCADA)

“Alguma vez terá havido outra ordem que tenha sido tão obedecida? Século após século, espalhando-se lentamente por todos os continentes e países e entre todas as raças da terra, esta acção foi realizada, em todas as circunstâncias humanas, imagináveis, para todas as necessidades humanas imagináveis, desde a infância, e antes dela, à velhice extrema, e depois dela, desde os pináculos da grandiosidade terrena aos refúgios de fugitivos, nas cavernas e nos covis da terra. Os homens não descobriram coisa melhor do que esta para fazerem aos reis na sua coroação e aos criminosos que vão para o cadafalso; aos exércitos triunfantes ou a uma noiva e a um noivo numa pequena igreja rural; aquando da proclamação de um dogma ou para terem uma boa colheita de trigo; para que haja sabedoria no Parlamento de uma nação poderosa ou por uma idosa doente com medo de morrer; a um estudante que vai fazer um exame ou a Colombo, ao partir para descobrir a América; face à fome de províncias inteiras ou pela alma de um namorado falecido; em agradecimento pelo meu pai não ter morrido de pneumonia…porque os Turcos estavam às portas de Viena; pelo arrependimento de Margaret; para a resolução de uma greve; para que nasça um filho a uma mulher estéril; pelo Capitão fulano-de-tal, ferido e prisioneiro de guerra; enquanto os leões rugiam num anfiteatro próximo; na praia de Dunquerque…tremulamente, por um velho monge, no 50º aniversário dos seus votos; furtivamente, por um bispo exilado que cortara lenha o dia inteiro num campo de prisioneiros perto de Murmasque; magnificamente, para a canonização de Joana d’Arc – poderíamos encher muitas páginas com as razões pelas quais os homens o têm feito, e não diríamos uma centésima parte delas. E o melhor de tudo é que, semana após semana e mês após mês, em cem mil domingos sucessivos, fielmente, infalivelmente, por todas as paróquias da cristandade, os pastores têm-no feito somente para formar o plebs sancta Dei – o sagrado povo uno de Deus”.

Gregory Dix, “A forma da liturgia”, in Jon Meacham, “As últimas palavras de Jesus”, Farol, 2021, pp.101-103.