terça-feira, 16 de janeiro de 2018

TRABALHO


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- Se a maioria das pessoas ou, pelo menos, muitas delas não querem trabalhar, não gostam de trabalhar, são preguiçosas, e, sem incentivo monetário, sem pressão para ganhar dinheiro, não se levantariam - objecção ao desvincular da relação prestação pecuniária recebida com trabalho exercido ou disponibilidade para o exercer -, porque é que nas prisões a proibição de trabalhar é usada como forma de punição? "Se um presidiário apresentar mau comportamento, é-lhe proibida a entrada no local de trabalho ou na cozinha" (nota de rodapé 55, pág.240). Conclusão: quase toda a gente gosta de se sentir útil, de dar o seu contributo, o estigma sobre as pessoas relativamente ao trabalho faz pouco sentido. Ou implica precisar: as pessoas gostam do "seu" trabalho? E há realidades que são materialmente "trabalho" a que não chamamos "trabalho", ou não? O "trabalho doméstico" não é trabalho? "A Dinamarca foi o único país a tentar alguma vez encontrar um valor no PIB para a amamentação. Não é irrisório: nos Estados Unidos, estima-se que o contributo potencial da amamentação seja de uns formidáveis 110 mil milhões de dólares (92 mil milhões de euros) por ano - praticamente o orçamento militar da China" (p.98)

- Um dado impressionante sobre o modo como nos relacionamos actualmente com o emprego: "os psicólogos mostraram que o desemprego prolongado tem maior impacto no bem-estar do que o divórcio ou a perda de um ente querido" (p.133; o autor cita ainda este ensaio em The Atlantic que é bem revelador das graves consequências do desemprego para muitas pessoas: https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2010/03/how-a-new-jobless-era-will-transform-america/307919/) 

- Muito se discutiu acerca dos feriados, nos anos mais recentes, mais pândegos do que nunca estaríamos - à espera, portanto, de correcção. Será? Uma curiosa visita histórica: "A ironia é que as pessoas da Idade Média talvez estivessem mais perto de atingir o alegado ócio da Terra da Abundância do que nós na actualidade. A historiadora e economista de Harvard Juliet Schor estimou que os feriados ocupavam nada menos que um terço do ano. Em Espanha, a proporção era de uns espantosos cinco meses, e em França quase seis. A maioria dos camponeses não trabalhava mais que o necessário para se sustentar. «Era lento, o ritmo de vida», observa Schor. «Os nossos antepassados podiam não ser ricos, mas tinham lazer com fartura». (pp.126-127). Isto, para indagar das finalidades da existência, das previsões de Keynes para 15 horas semanais de trabalho em 2030, do tempo que queremos estar com família, amigos, dedicados à arte, à leitura, à filosofia, ao desporto, à ciência. 

- A desigualdade é maior hoje nos EUA do que na Roma Antiga - que tinha escravatura (p.165)

- O PIB há 80 anos não existia. 


[a partir de Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, Lisboa, 2018]

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