
Leio n'O antepenúltimo moicano que, no limite, quando se preparava para colocar fim ao (seu) desespero (pela via do fim à vida), o pastor Toller (Ethan Hawke) viu a salvação chegar-lhe não pelo cristianismo (creio que o autor do texto queria dizer Deus) mas através do humano (no caso, Mary - Amanda Seyfried - e o seu amor, sob a forma de eros mas também, pode entender-se assim, agapê). Como se Deus se oferecesse sem mediações. Não se trata, em realidade, de uma alternativa (o binómio, senão antítese, colocada sobre a mesa) e, creio, a frase, da revista cinéfila, em assim sendo, perde sentido (quando o seu autor julgava, porventura, ter produzido, com a mesma, um golpe de efeito). Aconteceu-me com esta frase, como, aliás, me acontece - perceber concepções acerca de Deus e do seu modo de presença no mundo bastante desfasadas e ignorantes de muita teologia cristã dos nossos dias - com bastante literatura, ensaio com muitos seguidores (veja-se, a esse respeito, as concepções/imagens de Deus de um Yuval Harari, em Homo Deus, por exemplo). De modo que refutações, ainda que assim se creiam e compreendam, acabam por o não ser - sem os seus autores se darem conta -, e jogos de linguagem como se tornam irreconciliáveis. Tolentino de Mendonça costumava referir que em sociedades cultas, a procura, mesmo por banda dos que se afirma(va)m agnósticos ou ateus, de compreender um discurso actualizado sobre Deus (a teologia) fazia parte das tarefas a que se dedicavam os que queriam permanecer atentos ao mundo. Acontece que a crítica, por comparação, feita com esse apontamento, à realidade nacional, conhece hoje uma extensão que a exorbita longamente. Por falar nisso, na próxima semana sai um novo Halík em português, o que é sempre um acontecimento. Ainda que, por vezes, na partilha de livros nos saiam inquietações magníficas e muito pertinentes: "Gostei imenso, parecia um cientista a falar, mas ele não tem um livro sobre a Trindade?". Levei a pergunta da Ana, depois dela ler Quero que tu sejas!, para casa e fiquei a flirtar com ela, lembrei-me do título do artigo de Carlos Fiolhais, "O Deus do Padre Halík", e a remoer naquela quase "energia", "acontecimento", e, porventura, talvez, na falta de um claro contorno do Deus-Trindade (que bela crítica, aquela pergunta da Ana).
Há depuração, planos fixos, um rosto que concentra o filho perdido no Iraque, o álcool em que se cai, o diário como oração, no novo filme de Paul Schrader, que principia com uma Igreja quase vazia a lembrar um filme de Bergman, como Luz de Inverno - a Igreja First Reformed, ladeando Nova Iorque, titula no original o que foi vertido para No coração da escuridão, em português, mas, por exemplo, El reverendo, em espanhol; a ambiguidade do termo "escuridão", desde a noite mística, até a uma conotação mais negativa como descer aos infernos torna possíveis diferentes leituras do título do filme, bem como deste e da(s) crise(s) de fé -, mas que passa depois para um plano mais de actualidade e de política - as questões ambientais e a sua declinação apocalíptica, bem como a ligação da Igreja calvinista de Toller com os interesses empresariais que a financiam (e que degradam o ambiente).
Sim, serão estas questões que desafiam o seu equilíbrio já mais do que precário - o fim de um casamento, um filho que morre na guerra do Iraque, o álcool, um cancro -, e o levam a uma espécie de redenção pelo sangue - como se se fizesse crístico na batina que veste por cima do arame com que mortifica a carne, e que tinge de um vermelho que salpica o branco alvo -, quase não suportando mais a existência, à beira de repetir o suicídio de Michael (Philip Ettinger). Salvo do desespero pelo amor de Mary (na concretização de uma quase relação a três, se com Michael contássemos, num tópico extra de um filme com méritos, aclamado pela crítica, mas que pese o seu tributo ao "cinema transcendental" não me encheu tanto as medidas como esses filmes e autores em que se inspirou).
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